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jun 15

RELATO DE UMA CURITIBANA QUE ENTROU NA “DANÇA”

Saí de Curitiba e fui pra São Paulo visitar o Leonardo. Ele me convidou pra ir pro quarto grande ato contra o aumento da passagem. Aceitei na hora, por considerar a causa legítima e me sentir na obrigação de estar ao lado dos meus semelhantes enquanto cidadã brasileira explorada que sou, mesmo que não passe todos os dias pelas mesmas necessidades de sobrevivência dos residentes em São Paulo, afinal viver em Curitiba, a capital mais violenta do país, também tem seus inúmeros perrengues.

Chegou o dia. Chegamos no Theatro Municipal antes do horário marcado, comentei o quanto achei bonito o número de pessoas que estavam lá, impossível de ter idéia, só depois fui saber que chegou a aproximadamente 20 mil. O que me marcou foi a alegria de todos que estavam lá. Tinha batuque por tudo quanto é lado, musiquinhas, frases de efeito, até falando mal da hipocrisia dos petistas que chegaram por lá balançando suas bandeiras. Mas não quero entrar no mérito do PT, das bandeiras e nem de qualquer partido. Quero entrar no mérito do desrespeito a tudo aquilo que nós, pessoas de bem, consideramos nada menos do que o básico.

A marcha começou pacífica, linda de se ver, aquelas coisas que dão um orgulho enorme por participar e também de todo mundo que tá ali, pela mesma causa, pelo bem comum. Logo foi fácil perceber que o que levou tanta gente até ali foi muito mais do que 20 centavos. Era muito mais. Todo mundo sabia que era muito mais, mas era tanta coisa que ficava difícil tentar colocar em palavras. Seria uma lista infinita de todas as impunidades às quais o cidadão brasileiro trabalhador, estudante, não detentor do capital é submetido há incontáveis anos.

Qualquer um que leia isso sabe do que eu to falando. Eu to falando de pagar muito caro por serviços que não funcionam ou são sucateados. Eu to falando da falta de acesso ao que o ser humano necessita pra simplesmente sobreviver. Eu to falando de ficar que nem sardinha num trem/ônibus todos os dias, duas vezes por dia, pagando caro por isso. Eu to falando de ver o preço de tudo aumentando e o salário estagnado. Eu to falando de não conseguir ir no mercado e fazer compra do mês, porque uma compra do mês custa muito mais do que um salário mínimo. Eu to falando de inflação. Eu to falando de gente que morre na fila de um hospital. Eu to falando de um povo que vê os seus gorvernantes arrotando grandeza pro resto do mundo enquanto se sente pisoteado todos os dias. Eu to falando de um país que está cagando pro seu povo e gasta bilhões em estádios. Eu to falando da revolta absurda que tudo isso causa quando se para pra pensar. E tudo isso foi acumulando, até que chegaram os 20 centavos. Então você que ainda tá perdido: não são os 20 centavos, nós já passamos quietos por aumentos muito maiores. É todo o resto.

O que aconteceu a seguir é difícil descrever sem começar a chorar. Nunca passei por nada parecido e é difícil contar aqui a dimensão do sofrimento e indignação. Eu e o Leo estávamos mais ou menos no front da marcha, fomos o primeiro grupo de pessoas que viu o que nos esperava na subida da Consolação. A PM. Na hora em que nós os avistamos, lembrei do incidente que aconteceu no pré-carnaval em Curitiba no ano passado e disse exatamente isso “tomara que eles não façam como a PM do Paraná e comecem a atacar loucamente um monte de gente que não fez nada”. Foi como se eu tivesse previsto. Eles atacaram. Louca, arbitrária e incessantemente. Ninguém me contou, eu vi, eu fiz parte, eu fui atacada. NINGUÉM que estava participando do protesto fez NADA. Nada além de cantar, chamar a população pra rua, gritar os motivos pelos quais estávamos protestando. Nada.

No momento em que nós que estávamos ali percebemos que a polícia estava exaltada e dando sinais de que viria pra cima da multidão, começou o coro de “sem violência” que pairou pelas ruas do centro como se fosse um mantra a ser repetido 108 vezes ou mais. O coro se espalhou e logo parecia que as 20 mil pessoas estavam ali, na melhor das intenções, fazendo um pedido simples e indolor para a polícia: sem violência. A resposta foi: Bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Mas imaginem isso tudo numa quantidade ridícula, absurda, gigantesca, sem o menor sentido.

Sobrou pra todo mundo. Pras famílias inteiras, pros idosos, pras crianças, pras pessoas que seguravam flores, pra quem dançava no meio da rua, pros trabalhadores das grandes mídias, pra quem estava parado conversando. Além de tudo isso, pra quem tentava fugir, tinha emboscada. Sim, a polícia, aquela que dizem que ela existe pra proteger, fazendo emboscada. Ruas viraram corredores poloneses. Ninguém ficou impune.

Eu me perdi do Leonardo na hora em que estávamos tentando chegar na Paulista por alguma rua alternativa que não sei qual era. Éramos um grupo muito grande, chuto que umas 800 pessoas. O CHOQUE nos separou, eu fui pra um lado e o Leo pro outro. Ficou a menina curitibana sozinha na maior cidade do Brasil em meio a bombas, tiros e fumaça de gás. Corri, comecei a não conseguir respirar mais e senti que ia desmaiar a qualquer momento. Quando eu já estava quase desistindo, pensando seriamente em cair na calçada e ali ficar, talvez morrer, tinha uma porta meio aberta do meu lado, acho que era uma pastelaria, e alguém me puxou pra dentro. Eu já não estava mais correndo, estava cambaleando, sem respirar, sem ver, apenas indo também sem saber pra onde.

Fui acolhida nesse lugar onde me deram um pano com vinagre pra cortar os efeitos do gás lacrimogêneo e meio que voltei à consciência. Não conseguia parar de pensar em como podia encontrar o Leo, mas todo mundo ali estava perdido. Todo mundo ali estava com o sistema respiratório fodido, os olhos lacrimejando, sem saber de nada. Ao mesmo tempo ninguém queria ficar ali. Todos nós queríamos voltar pra rua e continuar a luta, respirando ou não, enxergando ou não, com conhecidos ou não. Todos nós viramos conhecidos, as 20 mil pessoas. Ninguém estava sozinho. Depois da melhora com o vinagre, partimos pra rua e pra guerra outra vez.

Eu acho que nem de guerra se pode chamar isso, porque guerra dá idéia de dois lados se atacando mutuamente e não foi isso que aconteceu. Só um lado atacava, e de cada ruela e cada buraco surgia um tiro ou uma bomba. Eles estavam por todos os lados, nós também, mas eles estavam armados e com sede de sangue. Vi policiais rindo ao acertarem pessoas. Vi policiais mirando as pessoas no rosto. Vi gente sendo presa quando estava com as mãos pra cima dizendo “sem violência”. Vi muito sangue e vi o desespero e a indignação em cada um dos olhares que cruzaram o meu.

Depois de algumas horas consegui ir pra um lugar em que pude respirar e encontrar o Leonardo. Agora estou na minha casa em Curitiba, trouxe de lembrança uma marca horrível e doída de bala de borracha na minha coxa direita. Só que essa bala não tá doendo só na minha perna, ela tá doendo na minha alma, e quando alguma coisa dói na alma, a gente não mede esforços pra nada. Eu tenho certeza de que vai ser maior. Tenho certeza de que as 20 mil pessoas que estavam lá vão se multiplicar e virar centenas de milhares, e se multiplicarão por todo o país, por todo o mundo. Todo e qualquer cidadão brasileiro, esteja onde estiver, está agora unido por algo muito forte que não dá pra nomear.

A luta em Curitiba, assim como em diversas cidades, está começando, e eu estarei lá enquanto ela existir, com mais força do que nunca. A luta está se espalhando e nós estamos fazendo a coisa certa. Em frente, galera. Vamos até o fim, porque só temos a ganhar.

Paz, luz e força a todos os guerreiros que tem a ideologia como arma e jogam flores ao invés de bombas

Créditos : http://feridosnoprotestosp.tumblr.com/

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